Thursday, December 6, 2007

Adenda ao relógio de sol do Bugio


Boas notícias: em Agosto de 2006, o relógio de sol do Bugio ainda estava intacto. Poderão vê-lo, ou revê-lo, em Álbum Fotos, reportagem fotográfica de um cibernauta que então visitou o forte. A imagem correspondente ao relógio está na última fila do slideshow.

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E já que temos vindo a falar de relógios deste tipo, uma curiosidade: os entusiastas já o sabem certamente de cor, mas há um dia no ano que lhes é dedicado: 21 de Junho é o Dia do Relógio de Sol e foi instituído em 1990 pelo Instituto de Investigação, Estudo e Divulgação do Quadrante Solar, fundado no ano anterior com a missão de “estudar e divulgar a gnomónica e o relógio de sol/sombra como instrumento de interesse histórico, científico, didáctico, lúdico e decorativo”.

Crédito imagem: Impression, Soleil Levant, óleo s/tela de Claude Monet, 1873; Musée Marmottan-Monet, Paris


O relógio de sol que Khadafi poderá apreciar



No Forte de São Julião da Barra, no magnífico terraço sobranceiro ao mar, o Presidente líbio poderá apreciar durante o seu acampamento por Portugal uma peça em excelente estado de conservação, apesar de estar há meio século ali. Trata-se de um relógio de sol, da autoria do General Henrique Pereira do Vale e que, além de um quadrante afinado para Lisboa, com respectivo gnómon, tem ainda quadrantes afinados para se poder ler a hora solar verdadeira na Ilha das Flores, nos Açores; em Luanda; Lourenço Marques (Maputo); Goa; Macau e Timor. O quadrante respeitante a Lisboa tem ainda um segundo gnómon, que indica a evolução anual do Zodíaco. A circundar a peça, a frase de Camões “Cujo alto império o sol em nascendo vê primeiro” (Lusíadas, Canto I). Pereira do Vale (1889-1974), engenheiro de formação, esteve na batalha de La Lys, na I Guerra Mundial, foi director do Colégio Militar e, ao longo da sua carreira de militar, investigou paralelamente dois temas – a artilharia histórica dos exércitos portugueses (de que foi e ainda é uma autoridade) e a gnomómica. Neste último caso, projectou e construiu dezenas de relógios de sol, nomeadamente para Afonso Lopes Vieira, de quem foi amigo. Se Khadafi vir a peça, e lhe traduzirem o significado, esperemos que não fique demasiado chocado com o seu tom “imperialista” e “colonialista”.

Um pedaço de um relógio de sol dos mais antigos do País está no Museu do Teatro Romano, em Lisboa, entre a Sé e o Castelo


Há um pedaço de um relógio de sol que pode datar do século VI da nossa era. Está no Museu do Teatro Romano (acima da Sé). O Museu,, leio na Wikipédia, «ocupa a vertente sul da colina do Castelo de S. Jorge, junto ao Pátio do Aljube, 5 (à Rua Augusto Rosa)». Lá dentro, um pedaço de um relógio de sol. A ser assim, julgo que será o mas antigo da Cidade, e dos mais antigos do País. Onde há muitos. Muitos: há quem afirme ter «inventariado no país cerca de três mil relógios de sol, os mais antigos remontando ao período romano. Um desses relógios de sol encontra-se no Teatro Romano de Lisboa, mas só pode ser visto com autorização da Câmara Municipal, uma vez que o teatro está fechado». Li aqui.
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No site da CML, referência ao Museu (não ao relógio, diga-se). Aqui. Fotos mais expressivas sobre o museu, aqui.

Tuesday, December 4, 2007

Também há um nos Capuchos!

Este, ali em cima da boca da cisterna, já tem 421 anos e já todos passámos por ele ou perto. «Reside» nos Capuchos e pode ler sobre ele aqui. Transcrevo. «No chamado "Pátio do Relógio" stua-se a antiga cisterna do convento, cuja boca tem cerca de 1 metro de altura e forma octogonal, e no topo da qual foi colocado um relógio de sol em pedra, onde está gravada a data de 1586 e as iniciais do construtor, e que pertencia à cerca do Convento. A boca da cisterna encontra-se revestida de azulejos azuis e brancos, provavelmente da 2ª metade do século XVIII, cuja decoração é composta por medalhões, no centro dos quais estão ramos de lírios, e por rica ornamentação rocaille de volutas, concheados, anjinhos e "asas de morcego". (...) Lamentavelmente encontra-se em mau estado de conservação, e colocado num pátio sombrio actualmente rodeado de edifícios» - diz a Junta de Freguesia local (veja mais no link aí em cima).

Um relógio na barra do Tejo



Fica num dos mais belos lugares da Grande Lisboa, um ponto na paisagem que todos conhecemos quando olhamos a barra do Tejo. Não é fácil vê-lo assinalar a passagem do tempo, mas poderia ser fácil fazê-lo se, ao lugar onde se encontra – uma das maiores jóias da nossa arquitectura militar -, fosse atribuído um uso público.

Instalado na bateria alta do Forte do Bugio, é um relógio de sol raro pela sua excepcional localização e, porventura, o mais solitário de todos eles, dado que a automatização do farol dispensou há muito a existência de faroleiros residentes.

O futuro desse relógio de sol é hoje tão incerto quanto o do lugar onde foi implantado: com o desmantelamento da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), entidade que cuidou da conservação do Bugio durante décadas, não se vislumbra quem dará, na prática, continuidade a essas intervenções; por outro lado, e embora ciclicamente disputado por três concelhos – Lisboa, Oeiras e Almada -, a verdade é que ele continua hoje sem uso para além daquele que mantém sob a supervisão da Direcção-Geral de Faróis. É pena que assim seja e que não possamos ver a lição que o seu pequeno relógio de sol tem para nos dar - que é tempo de darmos valor a tudo aquilo para o qual deixámos de ter tempo: o nascer e o pôr-do-Sol, para começar.


Créditos imagem: vista aérea e vista geral do Bugio quando da intervenção de protecção e reconstrução da sua muralha periférica, em 1999/2000; Inventário do Património Arquitectónico da extinta-DGEMN

Relógio de Sol de Belém


Era assim o relógio de sol no Jardim do Império - a relva com sulcos e desenhos, a servir de mostrador; a haste da âncora a projectar nele a sombra, a servir de gnómon.

Cá volto a Belém e à pobre da âncora ...


Retomo o que escrevi há meses, ali ao lado, ou seja:

Eis o que resta de um relógio de sol, do tempo da Grande Exposição do Mundo Português. Era composto por canteiros dispostos em mapa mundi, representando minuciosamente os quatro cantos das ex-possessões portuguesas. O jardineiro dedicado à sua preservação reformou-se há um bom par de anos. Desde então é o que se vê.

Pergunto se não haverá pela CML, de entre todos aqueles técnicos e funcionários desmotivados, um bom de um jardineiro que diga "presente" e se ofereça como voluntário para cuidar daquilo ... antes que aumente o número dos que pensam tratar-se a âncora de uma peça de arte, ou de algum navio encalhado, do tempo das Descobertas??!!

Monday, December 3, 2007

O relógio da Hora Legal em 1943



O regime diferenciado de Hora de Verão e Hora de Inverno tem como objectivo aproveitar ao máximo, para as actividades sociais da maioria da população, as horas de sol disponíveis ao longo do ano. A Alemanha terá sido o primeiro país a adoptar o sistema de Horário de Verão e de Inverno logo no início da I Guerra Mundial, em 1914. A Inglaterra e Portugal adoptaram esse regime em 1916, que tem sofrido até hoje várias alterações, como se pode ver em www.oal.ul.pt.
Em 1943, em plena II Guerra Mundial, Os Ridículos dedicavam a sua primeira página de 13 de Março à mudança da hora, ilustrando-a com um desenho do relógio da Hora Legal, ao Cais do Sodré. Nesses anos, por motivos de segurança (possibilidade de bombardeamento aéreo por parte dos alemães, mesmo sendo o país oficialmente neutral), e de escassez de energia, a iluminação pública era restringida ao mínimo e as horas solares eram aproveitadas ainda de forma mais "esquisita".
O regime de Hora Legal em Portugal em 1943 (como no ano anterior e nos dois que se seguiriam) era o seguinte:
Hora do meridiano de Greenwich, tendo sido adiantada de 60 minutos nos períodos compreendidos entre as 23 horas do dia 13 de Março e as 23 horas do dia 17 de Abril e, entre as 24 horas do dia 28 de Agosto e as 24 horas do dia 30 de Outubro; e adiantada de 2 horas desde as 23 horas do dia 17 de Abril até às 24 horas do dia 28 de Agosto.

Sunday, December 2, 2007

No PDM de Lisboa, o relógio da hora legal do Cais do Sodré é a peça nº 49.52



Uma nota que pode ser interessante. No anexo I ao Regulamento do Plano Director Municipal, lá está ele: o Relógio da Hora Legal do Cais do Sodré é listado como a peça nº 49.52 - ou seja: fica na Freguesia de S. Paulo (freguesia que no PDM / Regulamento, anexo I, é identificada com o nº 49). E na lista de património identificado desta freguesia ocupa o nº 52. A referência é a seguinte: «ANEXO N.° 1 (do Regulamento do Plano Director Municipal) / Inventário municipal do património / Lista dos imóveis e conjuntos edificados (artigo 13.°)».
E o que diz esse artigo 13º? Que este anexo «assinala os imóveis e conjuntos edificados com interesse histórico, arquitectónico e/ou ambiental, assim como as áreas de potencial valor arqueológico» e que «os imóveis e conjuntos edificados com interesse histórico, arquitectónico e/ou ambiental são os que constam do Anexo 1.»

Saturday, December 1, 2007

O Cais do Sodré antes do Relógio da Hora Legal

Uma das centralidades do tempo público alfacinha, mesmo antes de lá ter sido colocado o Relógio da Hora Legal estava situada no largo dos Remolares, hoje Cais do Sodré. Além da pesca e dos apetrechos a ela ligados, a zona começava a estar povoada de agentes transitários, para quem a hora certa era um instrumento diário de trabalho.
Antes do relógio mecânico, esteve lá um relógio de sol, horizontal. Alguém saberá do seu paradeiro?
Diz-nos Júlio de Castilho em “A Ribeira de Lisboa, Descrição Histórica da Margem do Tejo, desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho”: “Em 1860 havia no centro da praça uma escadaria circular de poucos degraus, e de 2 metros de diâmetro, tendo ao centro, sobre um pedestal, uma meridiana ou relógio de sol. Essa meridiana (como tantas coisas inofensivas e úteis!) tornou-se alvo dos epigramas, mais ou menos agudos, do Lisboeta. Há uns certos sujeitos inúteis, que só sabem rir, rir de quem trabalha, epigramar a quem serve. A meridiana era proveitosa; fazia o seu serviço, e cumpria-o bem; andava às ordens do sol, e obedecia-lhe pontualíssima, em benefício dos próprios ociosos que a desprezavam. Pois era moda dizer mal dela”.
E Júlio de Castilho, sem dar pormenores sobre quando a meridiana terá sido construída ou sobre quem a terá feito, conta várias histórias do quotidiano alfacinha que girava à volta da Meridiana dos Remolares. Uma delas diz respeito a “um pobre saloio, para quem um instrumento assim se figurava novidade inaudita, ouvindo dizer que era relógio se lhe aproximara e, desconfiado de que o pretendiam enganar, aplicara o ouvido, e tornara a aplicá-lo, concluindo (depois de maduro exame) que seria talvez relógio, mas estava parado”.
“Outro beócio chegando ali às Ave-Marias, quando já não havia sol, esperou pacientemente que se acendessem os candeeiros de gás da iluminação municipal, e foi depois consultar a meridiana... que lhe disse não sei bem o quê”, acrescente o conhecido olissipógrafo.
“A meridiana foi enfim substituída (e com vantagem) pelo monumento do Duque da Terceira, cuja primeira pedra se assentou em 24 de Julho de 1875”, conclui Castilho.
No Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa há uma imagem da Meridiana dos Remolares, numa ilustração ligeiramente diferente da que é incluída em “A Ribeira de Lisboa”. O mesmo arquivo tem depois imagens da praça a sofrer as terraplanagens para receber a estátua e para o assentamento de carris do “americano”, o antecessor do eléctrico, que tanto basbaque iria provocar na capital.
Pelas ilustrações se pode deduzir que o relógio de sol dos Remolares era constituído por uma coluna de pedra, no cimo da qual se colocara uma escala e um gnómon, cuja sombra indicava no mostrador a hora solar. Para onde terá ido, depois de destronada pela estátua equestre? Ninguém sabe. Para entulho, possivelmente.

Friday, November 30, 2007

Hora legal, legal mesmo

Na foto: edifício-sede do Observatório (construção: 1861), na Tapada da Ajuda
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Comecemos então pelo princípio: qual é a hora legal em Portugal? Quem é que me diz se a esta exacta hora são, como marca agora mesmo o meu computador, 23 e 6 exactas (23:06) ou se falta um minuto, passam dois ou 30 segundos para um lado ou para o outro?
Quando se me levanta essa dúvida e tenho necessidade de aferir seja o que for pela hora legal, vou a um sítio que nunca engana:
o Observatório Astronómico de Lisboa. Aqui.
Essa é a hora legal, de facto, melhor: de direito!
Se pretender visitar o sítio do OAL, pode clicar aqui.
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(Já agora: os meus parabéns aos compenheiros que tiveram esta ideia. E agradeço porque tiveram a amabilidade de me convidar e incluir nos fundadores do blog.)
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Depois desta entrada, vamos então aos relógios, ao tempo medido e aos relógios históricos de Lisboa (e arredores: vão ter uma surpresa um dia destes, se o espécime que tenho em mente ainda existir naquela esquina de um antigo palacete do Marquês de Pombal nos arredores de Lisboa: vou procurá-lo...). E há mais. Um dia destes, apareço com algo interessante nesse campo. Antes mais cedo do que mais tarde.











Fases da recolocação do relógio no chamado edifício da Hora Legal, ao Cais do Sodré, hoje. Trata-se de um relógio de quartzo, moderno. Tem razão o Professor Rui Agostinho, Director do Observatório Astronómico de Lisboa - esta não é a hora legal portuguesa, cuja única entidade emissora oficial é o OAL. Fica a curiosidade de saber se o Porto de Lisboa apaga ou não da frontaria a frase "Hora Legal". Devia apagar. O que é pena é que não haja um único relógio público em Portugal que possa ostentar esse título de Hora Legal. E as soluções técnicas são muito fáceis. Sobre a história do relógio do Cais do Sodré voltaremos brevemente ao tema.



Relógio do Convento do Carmo / Comando Geral da GNR







O relógio do Convento do Carmo, Comando Geral da GNR, está prestes a entrar de novo em funcionamento. Trata-se de uma máquina presumivelmente francesa, da região de Morez du Jura, importada no final do séc. XIX ou início do séc. XX. O relógio tem mostrador para o Rossio e batia horas e quartos em dois sinos, mas parece que agora passará apenas a accionar um.

Relógio volta mas hora legal não

In Diário de Notícias (30/11/2007)
MARINA ALMEIDA
ANA COSTA-ARQUIVO DN (imagem)

«O relógio deverá voltar hoje ao Cais do Sodré, em Lisboa. Mas não a hora legal, pois, desta vez, o relógio não vai estar ligado aos cinco relógios atómicos do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL). "É um relógio qualquer, mais preciso ou menos preciso, mas a Administração do Porto de Lisboa (APL) não pode manter a etiqueta de hora legal", diz ao DN Rui Agostinho, director do OAL.

O dispositivo deverá, segundo a APL, que tem jurisdição da zona, ser instalado até hoje. Esteve fora do local por causa das obras que decorrem ao lado, segundo a APL. No entanto, a sua falta de precisão tem décadas. Rui Agostinho diz que "desde o 25 de Abril" que o relógio está "ao abandono." O astrofísico disse ao DN que recentemente "desafiou a APL a fazer a hora legal" regressar ao Cais do Sodré mas nunca recebeu resposta. A certificação da hora legal faz-se através de uma linha telegráfica, a cada dois segundos, com sinais horários que regulam o relógio. "Um relógio pode atrasar 15 a 30 segundos por mês", alerta. Já "a hora legal mantém o padrão do tempo".

Rui Agostinho sabe a importância do que é ser guardião da hora. Por um minuto se ganha ou se perde. "É um valor essencial, e à medida que a nossa vida é mais electrónica, a hora ganha ainda mais importância", alerta. Nos últimos anos "houve vários casos [em tribunal] em que fomos chamados a dar explicações mas cada um [cada entidade] tem a sua hora..." , conclui com desalento. Lamentando o fim da hora certificada, questiona: "Qual é a garantia de qualidade daquela hora?"

O DN tentou, sem sucesso, até à hora de fecho desta edição, obter esclarecimentos da APL.

O primeiro relógio da hora legal chegou ao Cais do Sodré em 1914. Este exemplar foi substituído em 2001 pelo que agora regressa ao local e que tem "tecnologia digital e design bem mais moderno", segundo a APL. O exemplar original está exposto na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara.»

Esta notícia diz bem da aberração com que tratamos o tempo e os relógios.

Para os responsáveis da Administração do Porto de Lisboa, a Hora Legal é um fait divers, e tanto pode ser mecânico como digital, fazer publicidade a uma marca de relógios ou estar em cima de um contentor. Tanto se lhes dá. Compreende-se.

O que não se compreende é como a quem de direito tanto se lhe dá o que o Observatório Astronómico de Lisboa considera ou a APL acha. Fazendo horas, portanto. Esquisito, este país.