Monday, December 31, 2007

De Stonehenge a... Lisboa



Directamente, não tem a ver com Lisboa. Mas se é um «relógio de sol» - então tem tudo a ver com «relógios históricos» da Humanidade - e, portanto, também os nossos, seus sucessores... A questão é: a foto de Stonehenge é a imagem que sempre tenho nos meus desktops há muitos anos (idêntica à foto de cima)... Alguém me explica se é de facto um «relógio de sol»? Vou à Vikipédia e fico mais baralhado. O monumento megalítico mais belo de todo o mundo não tem um aexplicação plausível... ainda? Expliquem-nos lá!
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Nota
A imagem de baixo correpsonde ao nascer do Sol no solstício de Verão (21 de Junho de 2005, no caso)... dia em que o sol incide exactamente sobre uma determinada pedra do monumento, segundo também já li... Ou seja: «eles» colocaram então as pedras numa determinada disposição para obter um determinado efeito e lhes servir de orientação. «Eles» já saberiam «tanto» há mais de 2 000 anos?!

2 comments:

fernando correia de oliveira said...

Uma achega:
Quando e como começaram os homens e mulheres que habitaram o território a que hoje chamamos Portugal a “pensar” o Tempo, a ter dele consciência, a medi-lo?
Terá sido no Neolítico final e começos da Idade do Cobre (3000-2500 a.C.) que surge a magnífica, exuberante, misteriosa cultura megalítica – esse grande arco que terá por cenário praticamente a totalidade dos territórios a que hoje designamos por Portugal, Espanha, França, Irlanda, Dinamarca, Grã-Bretanha e Alemanha.
Aos nossos dias chegaram conjuntos monumentais, pedras enormes, colocadas umas sobre as outras, umas ao lado das outras, mas especialmente orientadas – antas ou dólmenes, menires, cromeleques, que os especialistas associam a espaços sagrados, a monumentos funerários, mas também à surpreendente função de marcadores do tempo, através da projecção da sombra do sol, ao longo do ano.
Portugal é especialmente rico nesses conjuntos, nomeadamente no Alto Alentejo, na Beira Baixa, no Minho. Os cromeleques (conjuntos de menires) de Vale de El-Rei ou Fontaínhas Velhas (Móra), dos Cuncos (Montemor-o-Novo), Couto da Espanhola (Idanha-a-Nova), Portela de Mogos ou Almendres (Évora), de Xarez (Reguengos de Monsaraz) são disso esplêndidos exemplos, estudados na sua orientação e função.
A direcção para o quadrante de sudeste da entrada dos corredores da maioria dos dólmenes do Alto Alentejo, repetida durante séculos, confirma, pelo menos, alguns preceitos rituais fortemente radicados e conotados com conhecimentos de uma antiga, e talvez incipiente, astronomia, diz-se. Mas o que mais surpreende os especialistas é que essa orientação se repete, durante aproximadamente dois milénios, em todo esse arco de cultura megalítica, das planícies hoje alentejanas às montanhas hoje britânicas. Os monumentos megalíticos estão todos dirigidos para o quadrante situado entre nordeste e sudeste, ou seja, para os pontos de amplitude máxima e mínima do nascer do Sol ao longo do ano.
Não é difícil imaginar toda uma linguagem, teatralizada, desempenhada por alguns “eleitos”, uma casta de sacerdotes, com direito a penetrar o espaço sagrado delimitado pelo conjunto de pedras. Casta essa que sabia a data exacta, a hora exacta, ano após ano, do espectáculo solar, num calendário que marcaria os ritmos, muito para além dos agrícolas. Calendários, sempre foram instrumentos de poder, de quem tem o poder.
Temos pois que, os primeiros calendários “portugueses”, ao mesmo tempo relógios de sol, ainda e sempre prontos a funcionar, a indicar equinócios e solstícios, datam de há cinco mil anos.
A chamada “cultura castreja” que se seguiu (700 a.C.), a dos povos celtas que entretanto foram invadindo o território, apenas terá continuado a utilização sócio-religiosa e de instrumento astronómico-astrológico-calendário destes conjuntos megalíticos.

para saber mais: História do Tempo em Portugal - Elementos para uma História do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades (Diamantouro, 2003).

ps: os cientistas torcem muito o nariz a este tipo de interpretação, que hoje mete druidas, plantas medicinais, danças iniciáticas nos solstícios e muito "new age". mas que a orientação e o aparato dos monumentos megalíticos a sugere, isso é claro. há uma escola científica que diz que tudo isto está errado, mas apenas por um aspecto: o alinhamento megalítico diz muito mais respeito à lua e às suas fases (o satélite da terra é muito mais espectacular do que o sol, no seu trajecto nocturno, e terá sido o primeiro eixo de um calendário primitivo, dada a menor periodicidade do ciclo - um mês, com as quatro fases, de aproximadamrente uma semana - do que ao sol). de qualquer modo, nessa teoria, também stonehenge e outros cromeleques teriam a função de calendário, mas desta vez lunar.
finalizando: a noção de tempo - com passado, presente e futuro, terá sido adquirida a partir da sedentarização, provocada pela agricultura. cheias cíclicas de rios, como o nilo, por exemplo, só serão apreendidas, se vivermos no local tempo suficiente para percebermos que elas se repetem.

José Carlos Mendes said...

FCR,
Obrigado. Magnífica lição.
Por favor, puxa isso para post: não deixes escondido aqui nos comentários...
A sociedade agradece.
Bom ano!!!!!!!!!!!!!!!!